Contra o Machismo, a Misoginia, a Violência e o Silenciamento
O mês de agosto é marcado, no Brasil, pelo orgulho e visibilidade lésbica, reunindo duas datas fundamentais para a história e a luta do Movimento: 19 de agosto, Dia Nacional do Orgulho Lésbico, e 29 de agosto, Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, mais do que datas no calendário, agosto representa um período de memória, resistência, reconhecimento e reafirmação da luta das mulheres lésbicas por visibilidade, respeito, direitos e igualdade.
A visibilidade lésbica não é apenas uma pauta de representação. É uma luta por existência, dignidade, segurança, liberdade e direitos. Em uma sociedade que ainda convive com o machismo, a misoginia, a LGBTFOBIA e diferentes formas de violência contra as mulheres, tornar visíveis as experiências de mulheres lésbicas é também denunciar as estruturas que tentam silenciá-las, invisibilizá-las e controlar seus corpos, suas escolhas e suas formas de amar.
Celebrar a visibilidade lésbica significa afirmar, com clareza, que mulheres que amam mulheres existem, ocupam todos os espaços da sociedade e têm direito a viver plenamente, sem medo, sem constrangimento e sem violência.
E essa afirmação precisa ser feita todos os dias.
Quando o machismo e a lesbofobia se encontram
A violência contra mulheres lésbicas não pode ser compreendida apenas pela ótica da orientação sexual. Ela também está profundamente relacionada ao machismo e à misoginia, porque são mulheres que, além de enfrentarem a discriminação por serem lésbicas, podem ser alvo da violência e da desigualdade historicamente dirigidas às mulheres.
O machismo sustenta a ideia de que homens devem ocupar posições de poder e que mulheres devem obedecer a determinados padrões de comportamento. A misoginia, por sua vez, expressa desprezo, hostilidade ou ódio contra as mulheres. Quando essas estruturas se combinam com a lesbofobia, o resultado pode ser ainda mais perverso: a tentativa de negar a autonomia das mulheres lésbicas, deslegitimar seus relacionamentos, sexualizar suas identidades, impor padrões de feminilidade e até utilizar a violência como mecanismo de controle.
Uma mulher lésbica não deve ser obrigada a provar sua orientação sexual. Não deve ser questionada sobre sua vida íntima. Não deve ser tratada como alguém que precisa de um homem para “corrigir” sua sexualidade. E jamais deve ser submetida a qualquer forma de violência sob a justificativa de que seu modo de viver ou amar é inadequado.
O corpo, a identidade e a orientação sexual de uma mulher não pertencem à sociedade, não pertencem aos homens e não estão disponíveis para controle ou julgamento.
A violência também começa no silêncio
Nem toda violência deixa marcas visíveis no corpo.
Ela também aparece nas piadas consideradas “inofensivas”, nos comentários depreciativos, nas ameaças, no assédio, na humilhação pública, na tentativa de apagar a existência de um casal de mulheres, na discriminação no trabalho, na família ou nos espaços de convivência.
Existe violência quando uma mulher é constrangida por demonstrar afeto por sua companheira em público, enquanto casais heterossexuais fazem o mesmo sem serem questionados.
Existe violência quando uma mulher lésbica é sexualizada, objetificada ou tratada como fantasia.
Existe violência quando sua orientação sexual é utilizada para desqualificá-la profissionalmente ou socialmente.
Existe violência quando familiares tentam impor silêncio, vergonha ou isolamento.
E existe uma forma especialmente grave de violência quando a lesbofobia se transforma em agressão física, violência sexual, perseguição ou ameaça.
Por isso, falar de visibilidade lésbica é também falar de prevenção e enfrentamento da violência contra as mulheres.
A invisibilidade também machuca
Durante décadas, mulheres lésbicas foram apagadas de narrativas históricas, culturais, políticas e sociais. Quando aparecem na mídia, muitas vezes são representadas por estereótipos, hipersexualização ou personagens superficiais.
A ausência de representação também produz consequências. Jovens que estão descobrindo sua orientação sexual precisam encontrar referências positivas, histórias reais e espaços nos quais possam compreender que não estão sozinhas.
Uma sociedade que não representa mulheres lésbicas contribui para que muitas delas cresçam acreditando que precisam esconder quem são para serem aceitas.
Visibilidade é pertencimento. Visibilidade é proteção. Visibilidade é cidadania.
Orgulho lésbico é resistência
Ter orgulho de ser lésbica, em uma sociedade onde ainda existem preconceitos e violências, é também um ato de resistência.
O orgulho não significa apenas celebrar uma identidade. Significa confrontar a ideia de que uma mulher deveria sentir vergonha de amar outra mulher. Significa ocupar espaços públicos, políticos, culturais, profissionais e sociais sem pedir autorização para existir.
Mulheres lésbicas estão na ciência, na educação, na política, na cultura, nas artes, no esporte, no empreendedorismo, nos movimentos sociais e em todas as áreas da sociedade.
Suas histórias precisam ser contadas. Suas conquistas precisam ser reconhecidas. Suas vozes precisam ser ouvidas.

Combater o machismo é combater a violência
O enfrentamento à violência contra lésbicas passa necessariamente pela desconstrução do machismo e da misoginia.
Machismo não aparece somente em grandes episódios de violência. Ele também está presente no cotidiano: na tentativa de controlar as escolhas das mulheres, na desvalorização de sua capacidade profissional, na desigualdade de oportunidades, na divisão injusta das responsabilidades domésticas, nas piadas sexistas e na ideia de que homens têm algum tipo de autoridade natural sobre as mulheres.
A misoginia pode assumir formas ainda mais graves, manifestando-se por meio de ameaças, assédio moral e sexual, agressões, perseguições, violência sexual e crimes motivados pelo ódio às mulheres.
Quando uma mulher lésbica é violentada por ser mulher e por ser lésbica, estamos diante de uma sobreposição de violências que precisa ser reconhecida e enfrentada.
Não se combate a lesbofobia ignorando o machismo. Não se combate a violência contra as mulheres ignorando a lesbofobia. As lutas estão conectadas.
Educação, políticas públicas e responsabilidade social
O enfrentamento desse cenário exige muito mais do que discursos.
É necessário investir em educação para o respeito e a igualdade, desde a infância, promovendo uma cultura de direitos humanos e enfrentando preconceitos antes que eles se transformem em violência.
Também são fundamentais políticas públicas capazes de acolher e proteger mulheres lésbicas, profissionais preparados para atender vítimas de violência sem preconceito, mecanismos eficientes de denúncia e responsabilização dos agressores, além de iniciativas que promovam autonomia econômica e participação social.
Empresas, instituições de ensino, órgãos públicos, meios de comunicação e organizações da sociedade civil também têm responsabilidade nesse processo.
A comunicação, em particular, possui um papel fundamental. Representar mulheres lésbicas com respeito, complexidade e dignidade ajuda a romper estereótipos e contribui para que novas gerações cresçam entendendo que a diversidade faz parte da sociedade.
Não basta tolerar. É preciso respeitar.
A luta pela visibilidade lésbica não pede privilégios. Pede direitos.
Não pede que mulheres lésbicas sejam apenas toleradas. Pede que sejam respeitadas.
Não pede silêncio diante da violência. Exige posicionamento.
Não pede invisibilidade para evitar conflitos. Defende o direito de existir com dignidade.
A construção de uma sociedade verdadeiramente democrática passa necessariamente pelo enfrentamento de todas as formas de discriminação. E isso inclui combater o machismo, a misoginia, a lesbofobia e qualquer tentativa de controlar ou diminuir mulheres por sua identidade ou orientação sexual.
A luta contra o preconceito não pode acontecer apenas em uma data do calendário. É uma responsabilidade de todos os dias.
Que a visibilidade lésbica seja cada vez mais presença, voz e poder de transformação.
Que nenhuma mulher precise esconder quem é para sobreviver.
Que nenhuma mulher seja violentada por amar outra mulher.
Que nenhuma menina cresça acreditando que precisa sentir vergonha de sua própria identidade.
E que possamos construir uma sociedade na qual mulheres lésbicas não sejam apenas vistas, mas respeitadas, protegidas, representadas e livres para viver plenamente.
Visibilidade lésbica é resistência.
Combater o machismo é necessário.
Enfrentar a misoginia é urgente.
Combater a lesbofobia é defender a vida.
E respeitar as mulheres é dever de toda a sociedade.
Por Leila Pizzotti

