Ligações clandestinas atribuídas ao governo municipal provocam cancelamento de feira, transferência de evento e revolta entre trabalhadores
Uma situação considerada inédita e constrangedora por feirantes provocou revolta em Rio Claro após a Neoenergia Elektro confirmar à imprensa a existência de ligações irregulares de energia elétrica nas praças do Jardim Portugal e da Boa Morte, utilizadas para abastecer barracas, food trucks e a iluminação das feiras livres realizadas nos locais.
Segundo a própria concessionária, os cabeamentos foram retirados por não possuírem autorização e por representarem riscos à população. A descoberta acabou afetando diretamente dezenas de trabalhadores que dependem das feiras para garantir o sustento de suas famílias.
A Feira Livre do Jardim Portugal, realizada tradicionalmente às quintas-feiras, teve sua edição de anteontem (11) cancelada. Já a Feira da Boa Morte, que acontece às sextas-feiras, precisou ser transferida nesta sexta-feira (12) para o Espaço Livre da Vila Martins, onde também é realizada a Feira Corujão.
Elektro confirma irregularidades
A Neoenergia Elektro informou que a retirada dos cabeamentos ocorreu por questões de segurança e em cumprimento às normas regulatórias.
“Priorizando a segurança da população e cumprindo critérios regulatórios, a Neoenergia Elektro realizou a retirada de cabeamentos irregulares que distribuíam energia para a praça do Jardim Portugal e para a Praça da Boa Morte. Por ser realizado por pessoas não qualificadas e não autorizadas, a fiação pode ficar exposta e representar riscos para toda a comunidade”, informou a concessionária.
A empresa destacou ainda que “a única maneira segura e legal de obter energia elétrica é por meio de um contrato regular com a distribuidora”.
A confirmação da própria Elektro sobre a existência das ligações clandestinas aumentou ainda mais a repercussão do caso nas redes sociais e entre os trabalhadores afetados.
Prefeitura apresenta outra versão
A Prefeitura de Rio Claro apresentou explicações diferentes para os transtornos.
Sobre a Feira do Jardim Portugal, a administração do prefeito Gustavo Perissinotto afirmou que o cancelamento ocorreu em razão das obras de melhorias realizadas na praça.
“A medida foi adotada com o objetivo de garantir a segurança de feirantes e visitantes, preservando condições adequadas para a realização do evento”, informou.
O governo municipal acrescentou que está trabalhando na regularização das instalações e na implementação de melhorias.
Já em relação à Feira da Boa Morte, a Prefeitura afirmou que a mudança para a Vila Martins ocorreu em razão da previsão de chuva.
Revolta toma conta dos feirantes e das redes sociais
A repercussão do caso gerou indignação entre feirantes e prestadores de serviços, que passaram a questionar o prejuízo causado aos trabalhadores e o desgaste provocado pela situação.
Os relatos colhidos pela reportagem apontam sentimento de incredulidade e vergonha diante da repercussão negativa envolvendo as feiras. Alguns nomes foram alterados para preservar as fontes.
José, feirante há vários anos, demonstrou indignação.
“Onde já se viu a Prefeitura agir assim? Nós que somos feirantes estamos incrédulos com a situação. A que ponto chegamos? Fazer gato? Até a própria Prefeitura foi capaz disso”, desabafou.
A feirante Beatriz destacou os prejuízos acumulados pelos trabalhadores.
“O prejuízo dos feirantes não começou hoje. Ontem fomos avisados apenas no período da tarde sobre o cancelamento da feira, quando muitos já haviam se preparado para trabalhar. Hoje, mais uma vez, diversos trabalhadores foram surpreendidos e prejudicados. Por trás de cada barraca existe investimento, esforço, dedicação e famílias que dependem dessa renda. Alguns perderam alimentos preparados para a venda, outros tiveram prejuízo financeiro com mercadorias e estrutura. Independentemente do que vendemos, todos somos trabalhadores buscando o sustento de forma honesta”, afirmou.
Já a aposentada Fátima, frequentadora e ex-feirante, classificou o episódio como “uma verdadeira vergonha”.
“Eu não participo mais, mas a gente trabalha honestamente e a Prefeitura faz essas coisas? Onde fica a nossa cara? É uma vergonha. Parece uma cidade abandonada”, declarou.
Carlos, que está iniciando na atividade, afirmou que contava com as feiras para complementar a renda familiar.
“Eu estava contando com as feiras para garantir o sustento da minha família no final do mês. A esperança era poder trabalhar e crescer. Agora estamos virando motivo de piada por algo que não fomos nós que fizemos. É inacreditável”, lamentou.
Trabalhadores cobram explicações
Além dos prejuízos financeiros, os feirantes afirmam que a situação trouxe insegurança, desgaste e preocupação com a continuidade das atividades.
Enquanto a Prefeitura fala em regularização das instalações, trabalhadores cobram esclarecimentos sobre como os cabeamentos irregulares foram instalados, há quanto tempo estavam sendo utilizados e quem será responsabilizado pelos prejuízos causados aos feirantes que dependem das feiras livres para sobreviver.
O episódio, que já ganhou grande repercussão nas redes sociais, expôs mais uma crise envolvendo a estrutura das feiras públicas em Rio Claro e deixou trabalhadores indignados com aquilo que muitos classificam como uma das situações mais constrangedoras já registradas no setor.
Por Leila Pizzotti

